
The
Surround Ambience...
Anti-semitismo!?
Nos dias de hoje, deste século XXI ou mesmo do século XX,
possuímos razões mais do que válidas para nos interrogarmos sobre esta
expressão; será que o anti-semitismo apenas se dirige aos Judeus...
definitivamente não! O povo semita engloba todo o mundo Árabe, isto é, grande
parte do espaço geográfico Indo-Europeu em e no mínimo cerca de metade; d’onde
e dentro desta área, encontramos realmente o anti-judaísmo mas e também, o
anti-muçulmanismo, o anti-palestianismo (tanto o muçulmano como o cristão-católico
e o ortodoxo), o anti-etiopismo judaico ou copta tal como muitos outros anti
(s) no universo aqui abarcado. Por isto volto a focar a afirmação desesperada
de Zola no seu documento Carta à França
“França, se não estiveres atenta
seguramente caminharás para a ditadura. Hoje são os judeus que são os
perseguidos, amanhã serão os protestantes...” e eu questiono-me hoje “... depois, que mais tipos de semitas o serão?...”.
Este tópico prossegue, como não podia deixar
de ser, na época que a Monografia aborda, isto é, no séc. XIX (como desde a
morte de Cristo), o anti-semitismo recaiu apenas, somente e por sistema sobre
os judeus acusados no início na Europa e posteriormente por todo o continente
americano, de terem morto o salvador e filho unigénito de Deus, segundo os
dogmas e a História das Igrejas Cristãs; no entanto, obstam-se a denominar de
anti-semitismo as cruzadas e todas as lutas posteriores para retirar das mãos
desse cães muçulmanos – modo como
eram tratados os árabes fossem muçulmanos ou não –, a Terra Santa que
conspurcavam tanto com a sua presença como com o seu domínio e se tal foi acha
na primeira guerra mundial tornou-se fogueira-estandarte na segunda grande
guerra... contabilizaram-se os judeus mortos; porém dos árabes e dos ciganos não
reza a história nem a estatística tal como sobre as etnias árabes do mundo
indo-europeu. Foi esta a razão que me levou a iniciar esta parte do meu
documento, nunca com o fito de culpabilizar os judeus ou de afirmar ser um
exagero o modo como se aborda a história judaica porque a perseguição
anti-judaica foi tão real como dura e crua... apenas não contemplo os complexos
de culpa das denominações cristãs – incluindo a Católica, a Ortodoxa Russa e a
Luterana que em muito se tentam escusar alegando factores históricos e outros
mas todos muito mal enjorcados –, ao ponto de aceitar que o termo anti-semitismo seja uma particularidade
dos judeus como se fosse um elogio póstumo aos abatidos sistematicamente; tanto
as palavras como a semântica são ricas e necessárias demais para se permitir o
trivializar-automatizar do sentido dos termos.
Entre 1813 e 1815 muitos judeus combateram
em Leipzig e Waterloo, respectivamente, obtendo grande número deles a Cruz de
Ferro do mesmo modo que muitos ascenderam a postos oficiais; porém, tal não
lhes serviu de muito pois as medidas de tolerância de D. José II (da Áustria)
foram postas de parte pelos seus sucessores a tal ponto que nenhum judeu em
Viena podia ser proprietário baixo o seu próprio nome. Era-lhes interdito o
comércio das matérias-primas tal como o do sal e dos cereais sendo-lhes
expressamente proibida a profissão de boticários podendo apenas, por uma
situação excepcionalíssima, abrir uma
sinagoga e uma escola em 1811.
Na Boémia e na Morávia o número de judeus
rondava cerca de catorze mil famílias mas possuindo apenas uma comunidade em
Praga; porém e já na Galiza, os cerca de duzentos e cinquenta mil judeus viviam
em liberdade absoluta apenas podendo
habitar nas vilas aqueles que fossem agricultores ou artistas[1]. Posteriormente – um pouco antes da data da abertura do
nosso palco –, muitos deles foram sujeitos a não se poderem servir de pessoal
não judaico como e ademais obrigados e sobrecarregados a pesadas taxas sobre os
círios usados nas suas casas durante a celebração de cada Sábado;
paralelamente, vêem-se profanados pelo pior inimigo do povo a que pertencia, o
judeu Herz Hombey. Este inspector não só os perseguia como os denunciava
chegando ao bizarro de mover uma autêntica guerra aos livros, sagrados ou não, que
estivessem escritos na língua hebraica... Hombey foi o típico lacaio, no
acérrimo do termo, de um governo ao qual obedecia cegamente em detrimento e
grande pesar dos seus irmãos de raça. O resultado não se fez esperar, o
inspector Herz por tão nobre atitude
foi nomeado Inspector das escolas judaicas da Boémia[2] onde tanto os judeus como os ciganos[3] proliferavam.
Um pouco por toda a Europa os judeus eram
sujeitos ao serviço militar obrigatório o que lhes permitiu respirar algum
relaxamento das prescrições que sobre eles pesavam dado o modo de precisão
estratégica com que actuavam; por isto e num tempo relativamente curto, através
de um advogado cristão e amigo da comunidade judaica[4]
conseguiram uma representação da comunidade da Alemanha a fim de apresentar os
seus interesses no Congresso de Viena; do mesmo modo também os judeus de
Frankfurt obtiveram a hipótese de se fazerem representar[5]. A conversão dos judeus vienenses – já alta
como socialmente colocados e de sobremodo influentes –, à sociedade da Áustria
e ao seu modus-vivendis, permitiu-lhes que se reunissem nos grandes salões de
Barões e Baronesas regularmente frequentados pelos homens de estado prussianos
tal como pelos diplomatas austríacos; porém, o certificado de garantia de que tudo ia bem com os judeus deu-se
quando esses grandes senhores dos vários estados da Europa passaram, por sua
vez, a frequentar as grandes casas judaicas sendo perspicaz e principescamente
recebidos a fim de observarem a
rápida transformação e adaptação, o que implicava a educação
cristã dos filhos dessas grandes famílias judaicas, ao ponto de se convencerem
de que a emancipação judaica seria de sobremodo útil à sociedade cristã[6].
Ao ser redigida a Constituição da
Confederação Germânica o plenipotenciário[7]
prussiano Hardenberg era partidário duma disposição que colocasse os judeus dos
diferentes Estados num pé de igualdade com os da Prússia o que imediatamente se
revelou ser contra a vontade da Baviera, de Saxe e das Cidades Livres advindo
destas uma forte contestação; terminou por fim o documento da constituição, sob
uma nova redacção, na qual se afirmava a concessão do direito de cidadania aos
judeus à medida que estes fossem assumindo obrigações sociais.
Independentemente do resultado muito positivo para os judeus, acresce o facto
de ter sido a primeira vez que num Congresso e neste caso em Viena, se ter
exibido e considerado a questão judaica a qual passou, deste modo, a fazer
parte da política geral europeia[8]. Os
judeus da alta classe, a partir do já grande passo alcançado em matéria de
poder e igualdade, passaram a inovar[9] o
sistema de ensino e o método ritualístico; deste modo e para exemplo, o cântico
passou a ser acompanhado de música instrumental[10],
seguindo-se de orações e de homilética tudo em língua alemã... enfim, uma
Sinagoga de estilo Luterano. Este tipo de novo-estilo
sinagogal foi ordenado encerrar pelo governo na Westfália; não obstante,
Edouard Kley pregador e adepto do novo estilo, foi para Hamburgo como director
de estudos da escola livre judaica instituindo nesta cidade o Templo conjuntamente com outros
pregadores judaicos afamados prosseguindo de certa forma o modelo de Berlim.
Agora os coros eram acompanhados por órgão à boa-moda católica, as preces faziam-se em alemão e em hebraico
enquanto a leitura da Thoráh[11] era
executada em português.
Tumultos entre os judeus[12] modernistas e os judeus ortodoxos descambaram numa
hostilidade “anti-judaica” por parte dos povos da Europa ao ponto de expulsarem
os judeus de Lubeck e de Brema; entretanto – e já no nosso palco a Saga se
desenvolvia –, os direitos concedidos ao povo bíblico começaram a desaparecer
gradualmente embora ainda muitos se mantivessem contra o gosto do poderio
cristão. Em 1882 já praticamente todos os direitos judaicos tinham cessado por
imposição da Europa Católica e Protestante... aqui pelo menos foram
ecuménicos... afinal o bom povo
judaico quando se assoberba é muitas vezes do tipo ‘deram-me a mão agarro-lhes
o braço’, d’onde, não se podiam queixar. Mas apesar de todo o desaire intestino[13] – dado
que a guerra começou em casa em vez
da compreensão –, surge o triunfo intelectual judaico promovido pela ala
ortodoxa. Surgem nomes como o de Leopoldo Zunz (Von Tob Lippmann), fundador da
Sociedade para o Estudo e Ciências Judaicas[14], o
poeta Henri Heine, Isaac Samuel Régio – que inspirou a Escola de Mendelssohn e
que acreditava piamente na compatibilidade da Thoráh com a filosofia moderna –,
Samuel David Luzzatto, tal como Salomão Judáh Loeb Rappoport cuja teoria era
clara “O passado deve ser julgado pelos
seus pontos de vista porque cada época produz o necessário para a salvaguarda
da vida e da existência... tal como a história é uma continuação de
desenvolvimentos ligados entre si·.”
entre muitos e muitos outros.
Após anos de estúrpio, expulsões e
perseguições sangrentas os judeus viram-se apoiados pelo grande sábio Daniel
Chwolson, um cristão converso e orientalista de renome, numa altura em que a
agitação anti-semita[15] alemã
se estendeu à Rússia... a mesma fúria de sempre mas agora com um novo destino: a emigração para New York
e a fundação do centro judaico nos Estados Unidos da América; enquanto o grande país do Novo Continente lutava a
favor dos judeus em toda a Europa, não só sem qualquer êxito mas contribuindo
para o agravamento do estado desse povo no velho continente da mesma forma e
voltando ao nosso palco, as coisas em França também se complicam.

A dois terços da boca do palco observamos
uma figura pendurada por uma corda presa no tecto e que o prende pelos
sovacos... pode mexer relativamente os braços mas encontra-se encapuçada de
modo a não só não ver (apenas ouvir algo) como muito menos a poder falar. Eis o
nosso protagonista: Dreyfus[16]! Este
judeu, condenado a prisão perpétua na ilha do Diabo junto à costa da Guiana[17] observa-se
pendurado tanto simbólica como literalmente; oficial francês de artilharia,
e ainda dentro do espírito do ‘The
surround ambience[18]’, protagoniza, deste modo,
no nosso palco a súmula da acção
anti-judaica da época a que me reporto, levada ao acérrimo da intolerância por
parte da Europa... todos os povos se compõem de gente boa e má, activa e inútil
mas quanto ao povo judaico tal destrinça nunca se fez e por isso por uns
pagaram todos. Esta falta de análise por parte da Europa e as portas abertas da
América, gerou inevitável e definitivamente (entre muitos outros factores é
certo, mas o caso judaico contribuiu para a forte facada), aquilo que hoje
observamos: a dependência da Europa perante os Estados Unidos da América.
Imaginai, dentro do contexto em que nos encontramos, os movimentos que uma
república imperialista pode produzir na ânsia da tal Liberdade, Igualdade e
Fraternidade[19]... o
povo subjugado tal como as artes e as ciências confinadas ao sustento da
estratégia, da guerra, da repressão e do falcatruar de documentos[20] só pode
entoar um período de luto e de luta silenciosa a tal ponto que apenas os passos
do protesto (ou da fúnebre cerimónia[21]) se
ouvem... aqui e através das belas artes até os analfabetos lêem porque as pinturas exibem o peso e a carga do mundo urbano: a
sanguinolência da repressão porque a guerra encontra-se no cerne da Mátria
propriedade sob os negros auspícios que a bandeira d’um espaço-nação traduz a
meia-haste.
Na História das Artes tal como na História
em geral tudo se parece exibir compartimentado por datas; porém outros autores
optam por engavetar em estilos e
neo-estilos, tal como variegados historiadores usam outras ópticas e realmente
grande parte deles incentivam ao ler-estudar comparado; ora, é nesta última
forma que o aluno – que todos somos independentemente dos estudos e graduações
que possuamos... todos somos autodidactas –, pode apreender o material em que
se envolve; quero com isto afirmar-gritar o nunca se permitir-cingir ao
plano-bibliografia estabelecido por um Ministério... é certo que se tem de
cumprir o programa mas quanto mais amplos forem os materiais analisados, mais
fácil e claramente as respostas ao sistema imposto se poderão exibir. Tal e
para este tema, me aconteceu a nível da História de Arte: Velásquez...
Maneirista; Monet... Impressionista; Cézanne... Naturalista; mas todos
Surrealistas na sua forma-expressão sendo que alguns culminaram, numa
gaveta-vertente: a Contra-Cultura. Isto é, assenta e consiste – no intrínseco
do nosso ser do âmago-realidade de cada um de nós –, na oposição às rígidas e
não funcionais Regras Estabelecidas; ora, é deste estado de alma-psiqué que
depende a relação entre o ‘eu’ e o ‘Eu’, a personalidade e a personalidade
dirigida-vocacionada assentando nisto o alcançar o nosso melhor trabalho,
aquele que executamos e executaremos de tão bom grado que se torna uma pura
delícia elaborá-lo. Não sejamos utópicos! O sofrimento e a incompletude sempre
se farão presentes... não fora assim e pararíamos.
Na abertura do nosso palco e mesmo alguns
anos antes[22], a
lírica e o drama eram de tal modo formas ultrapassadas – segundo a opinião da
altura –, que apenas a prosa se pode tornar o veículo-luta da alteração (e altercação), do sentimento do viver; alheia-se
da história – como sendo uma estória –, e põe-na em causa não só como factual mas e essencialmente como método-sistema distorcido porém, sob uma
forma esvanecida que nos apeteceria
perguntar “afinal do que se trata ou... o que é que pretendem?” Nesta prosa que
abordo, sente-se e conclui-se toda uma dispersão que e mesmo assente em
bibliografias, exibe o desamparo da consciência moderna percorrendo, como um
sistema de análise combinatória, todas as variantes possíveis de uma escala de
temas-atitudes esparsas e mesmo triviais ao ponto da desagregação da unidade da
consciência cultural. Porém e porque nem tudo é mau, observam-se diferenças significativas das formas-estilos
abolidoras de modo radical e violento dos cânones: do há demasiadamente
estabelecido... a guerra é sempre a
mesma e que o digam, tal como confirmam, os grande músicos da época.
O tempero de Paganini[23] aos
dezasseis anos era de tal forma
original – afim à época da
independência dos cânones é certo, mas cada um com o seu mood –, que o levou a abandonar os pais afirmando-mentindo ir à festa musical que
anualmente se realizava na cidade de Luca em honra a S. Martinho. O seu modo de
perseguir nas ruas os membros da média e alta burguesia tocando o seu violino
era de tal forma jocoso que o instrumento jorrava gargalhadas, desprezo, excesso
de auto-estima e irritabilidade – para eles, é óbvio –; tal como a inutilidade
do estabelecido lhe valeu a fama de ter estabelecido um pacto com o diabo não
deixou por isso de ser condecorado pelo papa Leão XII[24].
Paganini expressou e demonstrou com o seu violino numa forma impressionista que
a revolta alcança sempre os resultados desejados desde que a persistência seja
mantida com tenacidade... força de expressão? Nunca! Mas já antes Mozart[25] tal
como quantos outros...[26]
músicos, escritores, poetas, actores de teatro, escultores, cenógrafos,
pintores e filósofos se viu obrigado a compor e a exibir as suas obras dentro
do alto gabarito clássico por
imposição do Imperador, pela pecúnia que sempre lhe rareava nos bolsos – porque
a sua grande fortuna consistia nas inúmeras e já incontornáveis dívidas –, tal
como pela pressão dos Doutores das
Escolas de Música para manutenção dos gostos
da alta e parte da média burguesia[27]...
l’art oblige; não obstante soube subvertê-las incluindo inclusive partes das
suas pantomínias sem ser detectado; provou ser um grande inovador quer por
impor as suas regras começando por demonstrar que o idioma alemão era
sonoramente tão bom para a ópera como qualquer outro idioma quer por
incontestavelmente pôr em causa a proibição do bailado clássico (lei essa que o
Imperador da Áustria já nem se recordava[28]).
Não obstante a sua verdadeira realização,
aquilo que realmente era a sua razão de viver, assentou nas pantomínias
underground (por serem proibidas na época) e nos meandros do ambiente-do-mau-vício-sub-urbano
(segundo a opinião púdica dos
senhores da corte). O bom gosto teatral das óperas e operetas impressionistas
contestatárias reuniam uma tão elevadíssima como frenética criatividade
exibindo os modos subversivos do monolitismo conduzido e imposto pelo Estado,
pelas classes dominantes, pelo clero, pelos militares tal como pela secreta
fartamente alimentada por
informadores – que podiam sofrer de tudo menos dos ouvidos ou da vista – os
quais possuíam bem subjugada toda uma corja de bufos que tudo e todos
denunciavam a troco de uns míseros tustes
para os copos e para a prostituição de onde obtinham grande parte dos dados que
pretendiam. A sua vida tornou-se um autêntico looping, a qual o conduziu à
morte por esgotamento, subnutrição e alcoolismo... só com muito álcool se
aturavam aquelas pestes insensíveis. Ora era a estes tais denominados de antros
que acorria o povo porque não só os preços eram acessíveis como havia sempre um
modo de entrar sendo ali que era verdadeiramente instruído, cultivado e
actualizado. A linguagem era acessível para todos e a música na sua complexa
simplicidade elucidava nos mais pormenores: sons de arrotos, gases intestinais,
lamentos histéricos criados por violinos tal como um belo príncipe caindo de um
cavalo produzido pela distorção e dissonância dos sons de trompas acompanhadas
de címbalos, rufares, bombos, etc.
Para abolir violentamente os cânones
contribuíram, também,
Franz
Kafka, Schopenhauer e Bertolt Brecht respectivamente no campo da literatura, da
filosofia e do teatro entre muitos[29]; porém
uma monografia como esta e acima de tudo o facto de a quem ela se dirige – já
mesmo com um texto um tanto denso e recheada de autores –, concede a amplitude
do problema-abuso in extremis[30] do
domínio, do dominante e do dominado. A Europa do século XIX apenas deriva da época medieval pelos
meios de comunicação que cada vez mais se ampliam através da maquinaria de
imprensa de Guttenberg, da evolução desta em qualidade-quantidade-rapidez tal
como no crescente número de intelectuais apostados em destruir as supremacias
ditatoriais tanto bonapartianas como da Casa de Áustria cuja sede de
imperialismo aberra contrastando com a miséria, o sangue derramado (por guerras
inglórias), pelas doenças e pestes acrescentado pelo cada vez maior frenetismo
do ritmo urbano... a classe pobre trabalhadora vê-se como que requisitada –
quais novos tipos de escravos –,
baixo horários de sol-a-sol com diminuto salário... famílias famintas e
extenuadas que se desmoralizam – mas a vergasta da vida não permite esse luxo
–, contemplando do gélido exterior as festanças, o som das músicas, das
gargalhadas, o barulho dos talheres nos pratos e das terrinas atestadas das
fartas mesas dos grandes e nobres
salões... cujos aromas celestiais exalados pelas chaminés aumentavam a fome à ralé.
Franz Kafka nasce num ambiente em cujo lar
os pais – um judeu e outro anti-judaico –, o obcecam ao ponto de ter sido
sujeito ao quarto, qual prisão domiciliar, pela vergonha do seu pai perante
toda uma sociedade anti-semita. Realmente, os escritos de Kafka
surgem
já após a morte de Emílie Zola – um dos principais intervenientes deste
processo –, mas são contemporâneos de Dreyfus (o pendurado condenado a prisão perpétua na Ilha do Diabo), que neste
documento não é mais do que um personagem-súmula do anti-judaísmo na França em
particular e na Europa em geral; não obstante no seu caso pessoal não só
conseguirá ser ilibado retomando as suas funções e a sua patente de capitão,
como ainda virá a comandar as tropas francesas com pleno sucesso na primeira
grande guerra mundial.
A obra de Kafka (1883-1924) surge nesta
época como uma elaboração-visualização estranha e de sobremodo original[31] mas
dificilmente compreendida: a sua genialidade não só persiste em fazer avançar o
impressionismo como obriga à meditação-racicíonio nos seus pressupostos mais
profundos nos quais deduz ad-contrarium, expondo os seus enormes abalos
existenciais como sendo os da época de tal forma
que já não se sabe se é de
Kafka que se trata ou da sociedade[32]... do
stress, do seu pessimismo, enfim, das suas visões, fobias e angústias. Desta
forma conduziu Kafka o Impressionismo, antecipando na sua prosa o
Expressionismo e o Surrealismo; ele impregnou a sua linguagem, aparentemente
impessoal e impiedosa, baseando-se no ardor da sua alma e no desespero das
criaturas que se vêem obrigadas ao abandono, apenas possuindo como amarra de
salvação a interrogação.
Bertolt Brecht expressa-se num palco com um
fundo escuro de luto no qual as personagens vagueiam tal como no mundo dos mortos
de Homero[33]. Se o
seu palco é definitivamente Impressionista as suas obras foram catalogadas como
pertencentes à Escola do Realismo talvez pela sua frontalidade de atacar sem
peias a brutalidade, a hipocrisia e as mascaradas de técnica-propaganda do poderio
do século XIX e XX sob o cliché: para o bem e desenvolvimento da civilização[34]. Brecht
exibe em vários dos seus documentos um propósito apologético e militante baixo
um (pseudo) secretismo romântico[35] e mesmo
sob forma poética badalesca, tudo preenchido de aventuras mas plenas de
crueldades, horrores, ironia e sentimentalismo que retractavam a época sob uma
forte forma condenatória e de tal forma subtil na análise que ainda hoje
Brecht, como muitos da época e anteriores, é actualíssimo demonstrando que a
história da Humanidade tende normalmente
a repetir-se... parece não haver imaginação para mais.
Schopenhauer[36],
contemporâneo de Zola e de Dreyfus[37], é o
(aparente) pessimista anti-idealista que expôs uma filosofia da Vontade dentro
daquilo que decidiu encarnar[38] no seu
intrínseco e que é (no seu início) alicerçado nesse pessimismo anti-idealista
que pretende instaurar um novo modo de vida... este fenómeno quasi derrotista
da vida deveu-se fundamentalmente ao âmbito de toda a política da época lhe ser
vedada... daí a sua fuga para uma subjectividade doentia; mas foi perante uma
época[39]
agnosticista positivista limitada ao mundo da experiência, desprezada pelo
filósofo, que Wagner, Hebbel, Raab e Bush, homens das artes, sentiram-se
atraídos pela persistência de Schopenhauer na sua Metafísica.
O humanismo burguês cada vez mais sentia-se
reduzido ao aspecto defensivo ao ponto da afirmação de Jacob Burckhardt em 1846
“... antes que irrompa a barbárie geral,
quero ainda encher os olhos de aristocrática orgia, poder estar activo no
momento da restauração...”, entretanto em 1857, Rudolf Haym vinca “... encontramo-nos na inevitável conjuntura do
quasi geral naufrágio do espírito e da crença no espírito... A nossa época não
é já para sistemas, nem para a literatura, nem para a filosofia. É uma época na
qual, mercê das grandes invenções técnicas do século, a matéria parece ter
adquirido vida. »
Nesta época da Industrialização
tecno-mecanicista encontram-se graves contradições políticas e de pontos de
vista porque enquanto o liberalismo burguês aclamava a liberdade do pensamento
e da acção, a tecnização da vida impunha uma força relevante a favor de um
cálculo prosaico assente numa vontade inflexível para planos organizados com o
fito da obtenção-robotização de pensamentos básicos com fins utilitaristas. No
desequilíbrio provocado por todo este mecanicismo no qual entre o ideal e a
realidade a fronteira tornava-se cada vez mais trincheiras deu-se origem a uma
hipersensibilidade nervosa conducente a uma concepção pessimista do mundo. Por
isto Schopenhauer e à medida que o século XIX avançava, no cerne da sua
filosofia acima exposta (com o conteúdo do pessimismo mas sem tão amplas
intenções), passa a cativar cada vez mais audiência ao ponto de se tornar advogado filosófico da época. Não
obstante tornava-se importante que o deus-teológico se tornasse um
Deus-Espiritual, isto é, não baixo ordens e imposições mas por meio de
aconselhamentos conducentes a uma contribuição-acção colectiva sem freios (o
que até no nosso século XXI ainda é utópico).
Em suma, o nosso palco tal como a peça que
nele se exibe surge num século conturbado por grandes inovações em múltiplas
vertentes. Se os excessos do poder caminham de braço dado com a sede
imperialista as guerras alastram por causa das sucessões ao poder, como no caso
específico de Espanha; a contra-espionagem atinge repentinamente um cúmulo
descarado alastrando-se por
toda a
Europa e por esta foi Dreyfus injustamente condenado, como se comprovará nos
temas seguintes deste documento. A Revolução Industrial e científica (dada a
velocidade do seu desenvolvimento), atinge o cúmulo que permitiu a
afirmação « agora não há problema que não se resolva... »; a emigração aos
magotes – especialmente para os Estados Unidos -, parece ameaçar o esvaziamento
da população europeia; as riquezas súbitas geram inúmeros novos-ricos –
garimpeiros do seio da ralé popular -, que começaram a minar descontroladamente
a ética plástica (de pés de barro), dos médios e grandes burgueses de há longas
gerações ao ponto de fazer estremecer os poderes centrais e conduzindo à
miséria muitos elementos da nobreza estabelecida, totalmente inapta para
enfrentar este surto de analfabetos; resultado... muitos deles não só se viram
falidos como os seus bens confiscados tendo por fim de empenhar os seus títulos
e brasões, último reduto do seu espólio que em leilões foram adquiridos sabe-se
lá por quem.
Este é o ‘Surround Ambience’[40]e por
isto escolhi o espectro teatral de Brecht no seio da escola de teatro de
Stanislawsky[41] porque
na realidade fora deste estilo não só o
Impressionismo pareceria irreal como se tornaria um puro lirismo.
Índice das imagens:
1 – Palco
Dreyfus
2 – Nicolo
Paganini
3 – Bertold
Brecht
4 – Ilha do
Diabo na Guiana Francesa
5 – Franz Kafka
6 – Arthur Schopenhauer
7 – Capitão Alfred Dreyfus
[1] Daí porque se afirmou e se afirma
que devido ao Impressionismo a pintura e as artes passaram do campo, do mundo
agrícola, para o espaço urbano como afirmei na Introdução deste documento. Isto
assenta no facto de que era proibido a um judeu, pelo decálogo, reproduzir o
que se encontrava sobre a Terra, debaixo da Terra e acima desta nos céus;
d’onde a Pintura impressionista permitiu e ainda hoje permite aos judeus mais
acérrimos seguidores da Thoráh, o poderem exprimir na tela ou em qualquer outro
material as suas imagens... a sua visão do mundo.
[2] Cargo que ocupou até à sua
morte.
[3] Para o povo cigano a Boémia
foi como uma pátria. Aqui permitiu-se-lhes
não só manter como reavivar muito das suas tradições tanto musicais em
particular como as artísticas em geral (não esquecer a grande tradição do circo
mais tarde tornado curso superior na União Soviética), as espirituais,
ritualísticas e divinatórias, entre muitas outras coisas.
[4] De nome Carlos Augusto Borchholz de Lubek.
[5] Os judeus de Frankfurt
fizeram-se representar pelo grande industrial Isaac Yhossef Cumpreecht e pelo
financeiro da Corte Jacob Baruch (ch = rr).
[6] Estratégia judaica à direita
e à esquerda tal como acima e abaixo... sempre superficial, mas não obstante
mui convincente.
[7] Aquele que possui plenos
poderes. Espero que me não levem a mal
por esta ou outra nota, mas a minha intenção – paralela à minha ignorância
sobre Vós -, é a de manter um texto escorreito sem Vos querer obrigar a
consultar outro documento... neste caso o dicionário.
[8] Pelo menos desde do início
da Inquisição.
[9] Já tinham demonstrado que os
filhos possuíam cultura cristã,
d’onde havia agora que exibir outras
novidades, outras estratégicas defensoras da sua raça.
[10] Nunca antes, tal como hoje,
foi usado esse estilo instrumental típico dos Cristãos Luteranos... apenas as
vozes se exibiam e exibem nas sinagogas sem qualquer acompanhamento inclusive
de percussão.
[11] Thoráh é o nome dado ao
Pentateuco – os primeiros cinco livros do Antigo Testamento. Segundo se afirma
foi o documento de Lei para o povo Hebraico dado por Deus a Moisés o qual foi
iniciado pelo decálogo (os dez mandamentos).
[12] Estes tumultos intestinos são uma constante
do povo hebreu e para constatar isto basta ler a Bíblia; da mesma forma o são
com os árabes... modus vivendis entre irmãos e primos.
[13] A verdade é que nestes casos
em que no âmago de um povo, dito perseguido e ninguém pode obstar a isso... mas
também abusador e nada pode obstar a tal, se origina uma luta ao ponto de tanta
estratégia provocar a falência dessa inteligência ao longo dos séculos tão
grandiloquente... tal representa a queda por uma luta ‘intestina’.
[14] Pressupondo que este
conhecimento evitasse a apostasia. Um grande literado que contribuiu, entre outros, mais tarde e no século XX à formação da
especialidade das religiões no campo das Ciências Humanas.
[15] Anti-judaica.
[16] Alfredo Dreyfus. Oficial
francês de artilharia, nascido em Mulhouse em 1839 e filho de pais israelitas.
[17] Guiana situa-se na América
do Sul na costa Atlântica possuindo como fronteira a norte a Venezuela.
[18] Estes termos jocosos franco-ingleses e vice-versa,
são típicos do autor... normalmente funcionam quanto mais não seja como
mnemónica mas e paralelamente, aliviam
o texto de toda uma complexidade ou chatice (como quiserdes).
[19] Neste fundamento a França exibe um lirismo
sem qualquer poética apenas tornando o lema patético... enfim, cada pátria tem as suas gravilhas.
[20] Tal como aconteceu com a
grafologia... por exemplo.
[21] No início era o fúnebre e o
protesto.... o fúnebre era o corpo exterior de tudo mas no âmago era a revolta
que voluía nos corações; e afirmou-se «o sangue é a alma!» e desta forma os
seres vão reassumindo a dignidade; e a mesma voz afirmou «que o sangue dos
holocaustos possa aspergir a Terra de bênçãos» e deste modo a revolta deu lugar
à guerra... a Unidade passou a consistir num amontoado de cadáveres numa vala
comum. (In Diário de Yhonathan
D’Affonseca).
[22] Por volta de 1925.
[23] O maior violinista do século
a que me reporto e um dos maiores de todos os tempos. 1782-1840.
[24] Realmente o Diabo parece sempre estar muito
próximo de Deus tal como se descreve no Antigo Testamento da Bíblia... o bem e
o mal passeiam-se de braço dado para bem do equilíbrio
humano em particular tal como do animal em geral. Retiro-me de qualquer
afirmação acerca do reino vegetal ou do mineral.
[25] Século XVIII.
[26] Recordo-Vos Miguel Ângelo o
qual perante a indignação papal e do cardealato pelo tempo que já demorava na
pintura da capela Sistina os espetou
todos (bem fotografadinhos), no
inferno... engraçado é que o papado até hoje não se queixou, pelo contrário, a
capela tem sido e é exibida aos turistas com grande orgulho do Vaticano.
[27] Senão não lhe concederiam os
tão necessários empréstimos ou créditos para a vida dissoluta (como se afirmava na época), de Mozart.
[28] Os conselhos dados pelos Doutores da Música e
Conselheiros do Imperador eram tão inúmeros quão incríveis sendo por isso
impossível que o monarca os tivesse em mente uma vez que abarcavam pormenores
tão pequenos quão ridículos.
[29] Ver os Anexos deste documento.
[30] Ao excessivo extremo.
[31] Mesmo ainda hoje de difícil
compreensão. Sobre os seus documentos muitas teses têm jorrado que abarcam
campos como a Filosofia, a Sociologia e a Psiquiatria, pelo menos, tendo sido a
nível clínico considerado vidente. Os seus textos influenciaram a pintura em
particular e as artes em geral.
[32] Do moi ou do moi-même do
Kafka ou do Moi e do Moi-Même da(s) sociedade(es).
[33] In A Odisseia, de Homero.
[34] Em nome da Civilização são imensos e inúmeros
os massacres, as cruezas, as cruzadas, as Reais imposições-grilhetas, enfim, as
grandes misérias que conduziram e conduzem o Ser ao cadafalso dos mortos-vivos.
[35] Com sugestões de Villaud e Rimbaud.
[36] (1788 – 1860)
[37] Contemporâneo de Karl Marx,
Ludwig Feuerbach e Hegel.
[38] Pessimista Anti-Idealista.
[39] Esta em que o meu documento se insere e se desenvolve.
[40] Ambiente envolvente.
[41] Daí a razão do súbito fecho deste capítulo
que eu classificaria ‘estilo guilhotina’, muito apropriado para o âmbito
francês a que esta monografia se dedica.